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domingo, julho 30, 2017

Você

Eu não vou escrever "você". "Você" se repete demais. Ninguém gosta de "você". "Você" empobrece. Ninguém merece "você". Você não merece. Você não me merece. Tampouco vou escrever para você que debocha de mim - você que classifica de cômico o meu drama e que chora das minhas piadas. Eu não vou escrever para você que não me entende - você que não quer me atender. Eu não vou olhar para você, dirigir-me a você, tocar você. E mesmo que eu seja esse traste, vou fazer falta a você. Mesmo com tanto "você". Mesmo sabendo que você não me lê. E, quando me lê, debocha de mim; ri-se da minha tragédia e chora da minha comédia. Vou fazer falta a você. Ainda que tudo esteja tão cheio de "você" e de você. A verdade é que
sempre foi para você até quando não era para ser e antes mesmo de conhecer você. Nenhum outro "você" foi você. E sempre foi para você tudo o que eu disse, o que eu não disse, o que eu queria e o que eu não queria dizer. Eu amo você!

JCDLJ

Introspecção



Levantei-me. Olhei-me no espelho. Assustei-me. Minha pele está negra? O susto, naturalmente, nada tem a ver com a raça, senão com a mudança. Olhei melhor tentando certificar-me de que a minha retina não me traíra. Não. E era ainda mais assustador! Percebi, então, que a pele não enegrecera. Não exatamente. Eu perdera o brilho no olhar, a expressão e o sorriso. Ao surprimir meu querer, meu viço, tornei-me mera sombra do que fui. Minha sombra tomou o meu lugar. Decido, então, gritar. O grito sempre me pareceu um ato afirmativo. Autoafirmação. Ação típica de quem não confia em si, no que se é, na sua imagem, na própria autoridade. Gritam os mais frágeis. Os fortes falam manso. Grito no vácuo. Estão todos surdos. Eu também não me escuto. Apostei na manhã, no sol, na luz. Neles pus minha esperança. Tolice. As trevas dissiparam-se. Eu também me dissipei. Teria ficado simplesmente invisível? Não. Eu sequer existo.



JCDLJ

Existência

Levantei-me. Olhei-me no espelho. Assustei-me. Minha pele está negra? O susto, naturalmente, nada tem a ver com a raça, senão com a mudança. Olhei melhor tentando certificar-me de que a minha retina não me traíra. Não. E era ainda mais assustador! Percebi, então, que a pele não enegrecera. Não exatamente. Eu perdera o brilho no olhar, a expressão e o sorriso. Ao surprimir meu querer, meu viço, tornei-me mera sombra do que fui. Minha sombra tomou o meu lugar. Decido, então, gritar. O grito sempre me pareceu um ato afirmativo. Autoafirmação. Ação típica de quem não confia em si, no que se é, na sua imagem, na própria autoridade. Gritam os mais frágeis. Os fortes falam manso. Grito no vácuo. Estão todos surdos. Eu também não me escuto. Apostei na manhã, no sol, na luz. Neles pus minha esperança. Tolice. As trevas dissiparam-se. Eu também me dissipei. Teria ficado simplesmente invisível? Não. Eu sequer existo.



JCDLJ

Empatia?


Às vezes me sinto péssimo. Quase sempre. Trago em mim as minhas dores e as do mundo. Vão dizer que é errado. Afinal, ninguém muda o mundo. E é verdade mesmo. Aceito. O mundo simplesmente gira e tudo continua nessa espiral infinita rumo ao nada. Mas, aí, tem aquele bicho chamado Esperança que nos morde e tendemos a achar que tudo é possível. Um mar de clichés! Basta acreditar. Filosofia a la "Lua de Cristal". Que seja, então, para mudar nosso próprio mundo! Tolos! Acreditamos. Eu ainda acredito. Confesso, porém, que dói. Estaria perdendo a fé? Estou perdendo a fé. A fé é anestesia. A religião a sua overdose. Faz tempo que mergulho num profundo realismo cru, cruel, sem fantasia, sem imaginação. Busco salvação. A minha salvação é o outro, mas o outro é também a minha perdição. Não entendo. E por não entender decido amar. Amor. O amor? Amém.

JCDLJ

quarta-feira, junho 14, 2017

O amor em Paulo de Tarso ou (...) não é sobre a merda do 12 de Junho!!!

Um dos aspectos que mais chama atenção nas epístolas de Paulo de Tarso é sua capacidade de discorrer sobre amor, alegria, paz, temperança e esperança. O apóstolo, tardiamente convertido a Cristo, mais de uma vez narrou seu abundante gozo, alegria e prazer, mesmo em etapas de sua vida em que toda sua experiência apontava para a realidade do cárcere.

É surpreendente e quase fruto de milagre que Paulo pudesse ter concebido em palavra tamanha disposição para a luz diante da mais profunda escuridão em que ele se encontrava. Em relação ao amor, a literatura paulina superou-se. Paulo sobrepôs o amor à fé e também a toda verdade conhecida – sem qualquer pudor. A maneira como Paulo enxerga esse sentimento é filha do Desespero e do Medo e foi parida pelas mãos da Morte. Contra todo prognóstico, porém, em Paulo, O Amor toma um caminho de salvação e de regozijo e ensina respeito, tolerância e caridade.

Agora, tornando a prosa mais rastreira, revelo que estive perguntando-me se eu teria encontrado sentimento semelhante, ou um lampejo disso que fosse, na minha vida e, em especial, no meu relacionamento.

Ontem, foi aquele dia em que vários dizem ter ao seu lado a melhor pessoa do mundo. Fato é que muitos fingem estar apaixonados, felizes e satisfeitos nas redes sociais. Tudo isso apenas para gerarem, nos outros, a sensação de que conquistaram algo que os outros podem ainda não ter conquistado ou até ter perdido. Há ainda quem, tendo testemunhado a miséria daqueles mesmos casais falsamente apaixonadíssimos nos 364 dias anteriores, chore, sofra e se sinta um lixo só porque não têm ninguém. Vá entender!

Olhem só! Não é nada contra o 12 de Junho, ok? Qualquer segundo já seria uma oportunidade sensacional para dar/receber presentes, ir a restaurantes e investir numa noite voraz de sexo! Ui! Separar 24 horas inteiras para celebrar o amor, o tesão e a amizade é sensacional. Por que se opor a isso? Nenhuma teoria que envolva “data comercial” me convence. Tudo, ou quase, tem preço e está à venda! Em vão, achar que o Capital não reclamaria também o 12 de Junho para si. O Natal e, pasmem, a Páscoa já tinham sido levados há tempos!

Então, por que pareço tão duro? Teria eu tomado um pé-na-bunda?

Not today, Satan! Not this time! Not yet! Eu estava era aqui pensando num texto para o meu amado, em razão do Dia-dos-namorados e em razão de ele ser – e aqui eu me auto-plagio – “a melhor pessoa do mundo”. Esse texto deveria ter saído ontem, sabe? Afinal, apesar de “Viados”, temos a mesma vidinha convencional da maioria dos “Héteros” que conhecemos. Não seguimos os conselhos de Foucault. Somos “padrãozinho”, bem heteronormativos, sim. Além disso, fruto do tempo em que vivemos, temos também a necessidade de provocar inveja. Acho que é para mitigar o tédio insuportável dos dias e a sensação muito corriqueira de que nos falta algum sucesso explosivo. Acho que também existe algum orgulho cruel sobre o insucesso dos mais volúveis que não conseguiram levar o relacionamento com suas contradições para além dos 6 anos - marca que comemoramos e sobre a qual falamos de boca muito cheia. Diante de tanta instabilidade e falta de paciência, acreditamos ter tido uma grande vitória. Não deixa de ser, especialmente quando sabemos que “we found love in a hopeless place”.

Você que resistiu até aqui deve estar perguntando-se por que raios esse cara começou todo engomadinho falando de Paulo de Tarso e de seu amor nascido no contrassenso das dores se é evidente agora o seu mordaz descontentamento e as suas críticas ao próprio relacionamento?

O Gustavo Henrique – também conhecido como meu marido - e eu acabamos de ter um desentendimento. Nada grave, mas toda vez que brigo com ele fico reflexivo. Talvez porque eu fique reflexivo até com a borboleta que atropelei noutro dia indo ao trabalho.

Nessa divagação, precatei-me de que ainda não havia escrito para o meu Príncipe um texto de amor em razão da importante data citada acima, e mais, percebi que jamais lhe havia escrito um texto de amor depois de um rompante de raiva. E, ao fazer essas reflexões, percebi também que falta em mim a nobreza de Paulo. Gente, é muito difícil dizer “Eu te amo, minha Rosa Vermelha” quando o que se está sentindo é “Vai se fudê, seu ignorante de merda”. Eu preciso, porém, enxergar além dos problemas. Afinal, nem Deus que é Deus fez o mundo num dia só. O meu grande problema e o da maior parte das pessoas medíocres como eu é que elas tendem a reduzir 6 anos a alguns minutos e isso é uma grande estupidez, meus caros!

A verdade é que eu não preciso refletir muito para fazer um apanhado das melhores características do meu amado. No entanto, como ainda estou com raiva, vou preferir falar de mim. Quem sabe reconhecendo o quão escroto eu sou consigo tecer loas a ele!
Ontem, como já repeti trocentas vezes, era “Dia dos namorados”. O que foi que eu fiz?

(a)    Fui para um restaurante?
(b)   Fui para um motel confortável e elegante?
(c)    Comprei um lindo presente?
(d)   Preparei o nosso quarto com rosas e velas aromatizadas para um sexo inesquecível?
(e)   Comprei flores e uma caixa de bombom?

Não. Nada disso. Peguei umas latas de Itaipava - que nem “Premium” eram - e as quais tinham sobrado de uma festa Junina, e fui assistir ao jogo de final da NBA, Warriors contra Cavs. Ele odeia basquete!

Sabe o que ele fez?

Foi para a cozinha, depois de um dia inteiro de trabalho, preparar um aperitivo de filé mignon para nós. Depois de umas quantas cervejas e de ter esquentado a barriga no fogão, não aguentou o tranco e dormiu - no terceiro quarto. Talvez não tivesse adiantado nada se ele tivesse resistido até o fim do jogo. Depois de umas quantas cervejas e de todo cansaço que eu estava sentindo, também iria querer dormir. Entenderam? Era como aquela música do Luan Santana. Só que nós éramos o povo invejoso indo trabalhar enquanto o Prédio Brasil fazia amor gostoso de novo. A lógica se inverteu.

Apesar disso, nenhuma cobrança foi feita, nenhuma cara feia existiu. Ele, que tinha me acordado no dia anterior com uma mensagem apaixonada, voltou a me acordar hoje – agora com uma mensagem zombeteira a respeito de um presente brega - COM LOUVOR - que um colega nosso fez questão de postar nas redes sociais. Embora tivesse reconhecido a minha bola fora da noite nada romântica do dia anterior, ele acordou fazendo piadas disso tudo e rindo. Rimos juntos e tive, mais uma vez, a certeza de que ele é mesmo o homem da minha vida.

É claro que, quem conhece o Gustavo sabe que ele iria querer todas as alternativas anteriores (ver a-e acima). Mais hora menos hora, eu terei que proporcionar uma noite romântica para ele. Fato é que já tivemos muitas noites de amor e o que sempre nos faltou foi paciência. O fato de ele ter tido paciência comigo ontem e de eu estar escrevendo esse texto agora revela que estamos crescendo como casal. Aprendendo que é dessa Paciência que a vida é feita e não de esporádicas noites românticas.

Agora, leitor, se me permite, dirijo-me a ele.



Amor, eu sei que os dias não são - todos os dias - os melhores. Eu sei os seus erros, os aceito e até os amo. Você acabou de vir aqui me tacar uns beijos na boca e, apesar de saber que você deveria ter dialogado comigo e não fugido da conversa, eu adorei!

Você também me conhece terrivelmente e, mesmo assim, decidiu receber-me. Então, só posso ser grato a Deus por ter encontrado em você a encarnação do Amor Paulino que encontra Gozo em meio as adversidades. Agradeço também porque– às vezes – é preciso também ser a encarnação da paciência de Jó. Naturalmente, jamais seremos santos como Paulo. São muitas as vezes que, apesar de todo esse amor, queremos dar um na cara do outro. Ainda assim, nós resistimos, sabe por quê? Porque o AMOR existe e com AMOR - eu creio – tudo é possível. É como o próprio Paulo fala:

1.Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. 2. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, mas não tiver amor, nada serei. 3. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me valerá. 4. O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. 5. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. 6. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. 7. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. 8. O amor nunca perece; mas as profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o conhecimento passará. 9. Pois em parte conhecemos e em parte profetizamos; 10. quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. 11. Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino. 12. Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido. 13. Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor.
1ª aos Coríntios 13:1-13

Hoje de manhã, tivemos a confirmação de uma conquista sensacional. Estamos vivendo um sonho, uma realização que achávamos que tão cedo não ocorreria. Que ótimo momento para perceber que, extrapolando a interpretação do texto, estou deixando de ser, falar e amar como um menino. Eu quero ser para você o homem com quem você sempre sonhou. É verdade que não me livrarei de todas as minhas imperfeições, pelo menos, não até morrermos. No entanto, enquanto houver essa disposição que temos demonstrado para amar e suportar, permaneceremos.


João C. de Lima Júnior

sexta-feira, setembro 23, 2016

João, você é um homem ou um rato?

Adianto que o relato que agora conto é inteiramente verídico, mas, não por isso, menos onírico ou menos simbólico. Freud explica!

"Você é o campeão do papai! CAMPEÃO DO PAPAI! CAMPEÃO DO PAPAI". Esses sintagmas, assim repetidos, ficaram ressoando na minha mente. Essa quase-epifania desencadeou  uma profunda análise , mas não a revelo, pelo menos, não por completo.


A vocês, basta-lhes saber que o sangue nojento que manchava o chão fazia pouco ia-se diluindo com parca ou nenhuma resistência ao chuê-chuá da água vertida do balde do papai orgulhoso. Tive a impressão de que, dentro de pouco, ninguém mais se lembraria do crime que houve ali. Ninguém mais, exceto eu. Confesso: eu cometi o crime. Eu fui o assassino!

Alguém entrou na nossa casa! Demorei a precatar-me de toda a desordem que se seguiu da sua chegada. Quando dei por mim, lá estava ele: um rato! Como pode um bichinho tão pequeno abalar tudo, alarmar a todos? Como pode um bichinho tão pequeno gerar tamanha ojeriza e, até certo pavor? Não parecia pequeno. Era até relativamente grande. Muito menos nojento, todavia, do que eu pensara.

Em meio a gritos de um lado e de outro, não havia mais nada que eu pudesse fazer, a não ser tomar nas mãos um cabo de vassoura - heroica lança improvisada.

Todos contra o pequeno roedor cinza!

O animal erguia-se desafiador e guinchava bravamente contra todos seus opositores. Ratos têm fama de covardes, mas aquele ratinho ali parecia diferente. Ele refletia uma sujeira e uma covardia que, sem dúvida, também eram minhas. Havia, porém, uma dignidade nele que me era desconhecida. Afeiçoei-me e admirei-o quase que imediatamente. Era tarde, porém, para retroceder! Todos o atacavam e também eu; é verdade que mais por impulso do que por consciência. Não demorou até que minha lança não-pontiaguda o pressionasse violentamente contra a parede. Teria escapatória?

Fato é que não morreu de uma vez, de primeira. Houve tempo ainda para que nos fitássemos. A essa altura, o rato já não guinchava. Ouvi seus gritos. Eram quase humanos! Ele se tornava cada vez mais humano e eu cada vez mais fera. De princípio, achei que fosse salivar com nojo, mas não foi o que aconteceu. Senti-me confortável. Afinal, já não éramos mais um homem e um rato ali. Dançávamos - um com o outro - uma dança cruel. A minha violência, contudo, era do tamanho da minha afeição. Ambas só aumentavam.

Com a força da pressão exercida sobre seu corpo, seus olhos ardorosos por clemência esbugalhavam-se. Ele pedia por socorro. Justo para mim? Eu entendia seu desespero retorcido e tilintante, mas não havia salvação. Para mim. Eu me tornaria seu algoz, mas era ele que sentia pena. Ele me olhava como se pudesse ler meus pensamentos. "Como você pode me matar se você já me ama?", comunicou-me telepaticamente. Ficamos minutos que pareceram horas nessa agonia, numa expectativa.

'Mate-o", disse-me um deles. 'Se não quiser matá-lo, deixe-o e nós o faremos", latiu o outro.

Eu dizia que não poderia matá-lo. No fundo, aquele processo de tortura dava-me certo prazer. Ter o poder de decisão sobre a sua vida dava-me uma liberdade monstruosa e sombria. Era um processo doloroso para os dois, mas havia prazer. Era quase sexo. É quase tudo sempre sexo. Mas eu e o rato?

Eu descobri que amava-o assim que ele fechou os seus olhos. Apesar de toda minha violência, o rato demonstrava paz. Dolorida, mas paz. Haveria chegado ao gozo? A morte é o gozo último da vida. Quase gozei também. Achei, então, que, talvez, ele também me amasse. Duvidei. Talvez só quisesse me enganar, salvar a própria pele. Ele mal resistia à minha violência.

Num ato de coragem, passei a lança para outro. Fosse como fosse, não queria ter a certeza de que o matei. Assim como Adão, o homem original, eu desejava atribuir o pecado a outrem. A culpa, – sentimento muito cristão – essa será para sempre minha!

Matei o rato, ainda que o seu último suspiro não tenha sido para mim. Eis aí o maior paradoxo dessa história. Eu jamais sentiria orgulho por tê-lo matado, mas a sensação de não poder requerer a glória do seu último suspiro deixa-me preso à minha fraqueza. Gerou-se uma decepção absoluta! Não matei o ratinho e "o campeão do papai" foi outro. Não eu!

No fim, o rato escapou. Sim, cruelmente, escapou para dentro de mim. Quem ficou preso fui eu.

Covarde!

Virei o rato que matei.


João C. de Lima Júnior

quarta-feira, setembro 21, 2016

Carência: confessando minha fragilidade...

Ela odeia tanto sua carência! Há pouco tempo sequer a percebia com clareza. Por isso, nunca a confessou publicamente. Todo mundo já lhe havia dito "menina, você é carente". Nunca acreditou. Houve quem fosse além "você é exagerada, histriônica, artificial, falsa". "Açúcar é bom, sabe, mas, em grandes quantidades, enjoa". É difícil para as pessoas aceitarem que você simplesmente gosta delas. Curioso! A menina não se achava ou se via carente. Falta de autoconhecimento? Seria um complexo de inferioridade?! Quem sabe uma ingenuidade adolescente de que Amor, Amizade, essas invenções, existem? A verdade é que ela jamais forjou sentimentos. Nunca, por interesse, chamou alguém de amigo. Nunca, com segundas intenções, foi capaz de fingir amar. É engraçado! Ela simplesmente se apaixonava num estalo. Tinha mesmo os olhos apaixonados, aprofundados de uma tristeza oblíqua toda dela e que ela fingia não conhecer. Tinha a capacidade absurda de encontrar pessoas no ônibus, indo para o trabalho, e, ao fim da viagem, sentir que são suas amigas há séculos. Ela parece viciada em sentimentos intensos - nunca daninhos. Ninguém entende. Ninguém é obrigado a entendê-la. Ela mesma não se entende. Queria ser aceita, acolhida. Não que fosse mal amada. Não! Era amada por poucos. Julgava-se genuinamente boa. Então, achava que era uma pessoa difícil de amar. Ficou tão frágil que calou. Ao calar-se, percebeu-se desistindo de convencer-nos de que era suficientemente boa: boa amiga, boa esposa, boa amante. Ficou simplesmente introspectiva, fria, gelada, aquariana. Ela não se culpa. Ela não se odeia. Explica para si mesmo: era só Carência. Era tudo ilusão. Seria só Carência? O que significa essa carência?
Ela sou eu.

João de Lima Júnior

domingo, julho 17, 2016

The younger we are, the more elastic are our hearts and minds.

Eu quero te roubar para mim e ter toda sua atenção, ou quase. O que fazer para você me perceber?

"And another one bites the dust
Oh why can I not conquer love
And I might have thought that we were on
Wanted to fight this war without weapons
And I wanted it I wanted it bad
But there were so many red flags"

Sinto-me infantil, piegas, babaca. Sou o mesmo de sempre. Esses textos nunca funcionaram, nunca serviram de convite. Desabafo! Eu falo. Eu me ouço.

"You did not break me
I'm still fighting for peace"

Comigo, você não sai da linha 2, da página 1. Você se cansa. O meu romantismo não é para você, mesmo se dizendo romântico. A minha beleza não é a sua, mesmo você dizendo que não tem esse lance de um "tipo" certo. Eu não agrado, ou agrado de um jeito que não me interessa agradar.

"And I will stay up through the night
Let's be clear won't close my eyes
And I know that I can survive
I'll walk through fire to save my life
And I want it I want my life so bad
I'm doing everything I can"

Os meus olhos são de "cachorrinho triste". Pareço apaixonado. Estou. Você prefere um olhar distraído, desinteressado. Quem sabe uma olhadela sexy, sombreada. Essa daí já não consigo fazer sem enrugar o rosto, sem mostrar os "pés-de-galinha" que já são inevitáveis. O tempo está passando. Sinto-me traído. Pouco a pouco, perco a poesia. Fico sem luz.

"Everybody loves the things you do
From the way you talk
To the way you move
Everybody here is watching you
Cause you feel like home
You're like a dream come true"

Você tem compromisso comigo? Você não tem compromisso com nada. Talvez, when we were young. Talvez, em outra vida. Nessa, é uma distância. São dois mundos. Dois universos. Eternamente longe. E ninguém mais há de aproximar-se.

"I was so scared to face my fears
Cause nobody told me that you'd be here
And I swore you moved overseas
That's what you said, when you left me"

Por que você existe? Você esticou meu coração. 

"It was just like a movie
It was just like a song
My God, this reminds me
Of when we were young"

"I've got an elastic heart
I've got an elastic heart"

No entanto, falta-me empenho, valentia. Talvez, para os dois. Quando éramos mais jovens, quem sabe!? Agora, o coração vai endurecendo, ou já endureceu!



segunda-feira, julho 11, 2016

Sim! Sim? Siiim.



Escrito depois de mais uma noite.

O que não teve começo, e nem terá, não pode ter meio. Sem começo e sem meio não terá fim. Apesar disso, está tudo lá, inteiro, completo, cheio, transbordante, delirante e vivo. Desejo! São todas as vidas, todas as possibilidades lá. Uma vida só. Só o menino vê. Só o menino enxerga. Ninguém ouve. Ninguém pode ouvir. Ninguém quer ouvir. Se eles vissem e ouvissem, não entenderiam. Está tudo na mente. É uma febre, não é uma narrativa. Estou avisando. É uma fantasia. É um fluxo desajeitado de palavras gastas. Desejo a pino! Envolvimento. Prematura morte. Tudo numa fração de segundos. Ele tenta explicar. Ele também tenta entender. Está confuso, dolorido e ardente. Expectativas. Reflexos de pensamentos num espelho quebrado. São apenas troços, destroços. A imagem turva de uma mente nebulosa. Vontade, ciúme, fadiga, necessidade, esperança, transformação, desejo e desespero. Eu já disse desejo? Quantas vezes? Repete-se. Repito-me. A saudade me entorpece os sentidos ou os dele. Chega! Terminou? Continua. Sim!? Onde? Vá saber!? No menino? Em você! Disse-me, fim. Ele diz, não. Eu digo, sim, mas só aqui.


quarta-feira, junho 29, 2016

Não é para te convencer. É para que você também se orgulhe!

#OrgulhoDeSer #ProudToBe #RebeliãodeStonewall #Stonewall1969 #DiaInternacionalDaLutaLGBT 

Penso.


– Como é a vida de quem permanece no armário mesmo depois de ter a clara percepção de que ser gay é um fato inalterável na sua natureza? – Como é a vida de quem, a despeito de frequentar festas LGBTs, ter amigos LGBTs, conhecer e atuar no meio LGBT, não consegue lidar naturalmente com o fato de ser gay em outros meios, tais como no trabalho, na escola/faculdade, entre amigos não-gays e, principalmente, no seio da família?

Há uma máxima entre os gays. Essa máxima preza, clama por respeito e pelo direito à discrição. Respeito e direito à discrição são mesmo fundamentais. Sou também signatário da opinião de que todos têm o direito de levar suas vidas como quiserem. Sejamos afeminados, durinhos, enrustidos, hiper-sexualizados, femininas, caminhoneiras, politizados, apolíticos, não interessa (...) ninguém deve ser forçado a ser de uma maneira pré-estabelecida, a comparecer num determinado evento, ou a levantar a voz numa determinada circunstância. Tod@s estamos em construção. O tempo é uma unidade pessoal. A prioridade de qualquer ser-humano deve ser sentir-se bem na própria pele. Acrescento, porém, que "sentir-se bem na própria pele" parece-me pouco diante da ampla possibilidade de viver e de gozar de uma plenitude. Para mim, ser pleno é ainda maior do que ser feliz.

Consegue ser pleno quem esconde "no armário" a totalidade dos seus sentimentos, seus desejos, seu modo de ser ou de querer agir? Consegue ser pleno quem admite ser visto pelo que é apenas em alguns lugares, mas não em outros. Como é viver escondido sob o risco de ser descoberto? Por que deixar nas sombras o que não é, não deve e não pode ser visto como um crime? Quais são os impactos na vida, na personalidade, nos gostos e nas escolhas de quem vive dupla, triplamente?
Embora "ser pleno" seja mesmo uma questão deveras subjetiva, impossível de ser determinada por outrem, é possível levar essa discussão para uma esfera menos conturbada: a da integridade. É verdade que Integridade tem uma conotação moral muito primeira. Não gostaria que direcionassem as minhas palavras para esse âmbito. Há outro sentido em ser íntegro que subjaz à questão moral e que, acredito, vai além de qualquer moralidade. Antes de ser moralmente correto, ser íntegro é ser inteiro.

Uma mente inteira é uma mente saudável. Permita-me divagar um pouco. Notem que a palavra
esquizofrenia tem origem na junção dos radicais gregos skhizein (separar, quebrar, partir) e phren (mente, cérebro). O esquizofrênico, portanto, costuma ser caracterizado como alguém que tem uma percepção alterada, quebrada, dividida da realidade. Em alguns casos, a personalidade do indivíduo é sobreposta por outras personalidades que se misturam à sua ou até mesmo a substituem. Ser esquizofrênico é, em determinados casos, não reconhecer a própria vontade, receber comandos externos que, na verdade, são internos, mas é como se não fosse. Uma confusão! Claro que referir-se a uma doença mental não é o mesmo que a uma decisão. Manter-se discreto em relação à própria sexualidade não é sinal de esquizofrenia. De todo modo, há muito das características de um quadro de esquizofrenia em pessoas que passam a vida inteira confusas sobre o que são, o que querem ser, sobre o que elas acham que os outros querem que elas sejam e sobre o que elas mesmas acham que querem. As consequências dessa confusão são inúmeras.

Falo com a autoridade de quem já viveu. Estive por longos 25 anos no armário. Apesar de não ser esquizofrênico, vivi com a alma partida a tal ponto que perdi a conexão entre o meu desejo e o desejo dos "EUs" que criei. Gastei muita energia tentando romper com quem eu era. Sentia vergonha de mim. Achava que "ser quem eu era" seria ofensivo demais. Sentia-me -sem qualquer vontade de fazer drama neste texto- merecedor de todo sofrimento, resultado de uma culpa por amar diferente. Curioso que eu só me apaixonava pelas pessoas que eu tinha certeza que não me corresponderiam, seja porque fossem heterossexuais, seja porque gostassem de parecer e viver como heterossexuais, seja porque seriam amores impossíveis. Só o impossível me interessava pelo fato mesmo de ser impossível. Vivia à espreita do impossível, cercava-o, cercava-os. Desejei o impossível e escalei os poços mais profundos do desrespeito e da vergonha. Escrevi textos falando de amores impuros, sujos, à sorrelfa. Todos viam, percebiam, mas iam dizer o quê? Durante esses 25 anos, tudo em mim era underground demais e regado a lágrimas infindas. Maysa, Elis e boêmia. Minha alma era um calabouço e eu mesmo era meu cadafalso. VINTE E CINCO ANOS dizendo "raspas e restos me interessam". Era tão humilhante! Veja, não era humilhante porque eu me humilhasse perante aqueles amores. Era humilhante porque eu era como um urubu que esperava a carne virar carniça. Amor sem qualquer coragem, amor sem qualquer virtude, amor sombrio, frio e baseado em carne, e carne apenas, sem amizade, sem sorriso, sem cama, sem finais de semana. Amores de beco, de bebidas e de drogas. Amores que apenas alimentam ilusões! Não são amores.

É muito triste perceber que alguém que você ama, ou deveria amar, luta contra você. Pior quando esse alguém é alguém que você mesmo criou. Pior ainda quando esse alguém é você mesmo. Isso se chama auto-sabotagem. Sabotava-me porque ser eu era "pecado"; porque eu não ia poder ser pastor; porque meus pais queriam um filho heterossexual; porque eu poderia ter dificuldade de arrumar um emprego no futuro; porque os meus amigos poderiam me rejeitar. Essa situação produziu tanta dor. Dores físicas, inclusive. Eu fui um lixo emocional durante uma vida toda. Para ser sincero, esses 25 anos gritam até hoje e é difícil não se render a eles.

A esperança é a Verdade. A Verdade que só está na luz e na inteireza, em que todos os pedaços da nossa mente podem ser encontrados e reunidos. Se você que é gay tem-se sentido fraco, se sente que a sua vida está estagnada, que você não consegue realizar seus planos, não consegue dar seguimento a muitos dos seus sonhos, é possível que você esteja gastando muita energia tentando administrar muitos de você; ou seja, muitos dos personagens que você criou para ser amado, aceito, respeitado. Eu acredito que só é possível ir além, na vida, e conquistar determinadas coisas que desejamos muito intensa e verdadeiramente quando todos os nossos pedaços se reúnem num só. Não é possível ir e deixar-se. Tem de ser por inteiro. Eu sei. Não é um processo fácil. Claro que não foi à toa comigo, não foi do nada. O processo sequer terminou. Tive sorte, sim, de ter encontrado um amor que me iluminou e que me ajudou a reunir cada pedaço perdido; que me deu um motivo para buscar uma plenitude, para acreditar que eu tinha direito a ela e a exigir o direito de viver plenamente ao lado da pessoa que amo e diante de toda a sociedade que eu julgo: tem o dever de nos reconhecer e nos aceitar.

Eu não sou um efeito colateral, mas o meu medo fazia a minha família ignorar a existência de pessoas como eu; achar que gays são os filhos dos outros, frutos de compulsão sexual, de uma frustração qualquer, ou até mesmo de um abuso.

Eu não sou uma doença, mas o meu silencio é o consentimento que gente preconceituosa precisa para justificar a necessidade de uma possível cura.

Eu não sou uma vergonha, mas a minha falta de orgulho fez com que milhares de LGBTs continuem sentindo-se sozinhos, sem uma referência, perdidos.

É por isso que tenho orgulho de ser GAY! Não porque eu seja, ou me ache, melhor do que qualquer heterossexual. Tenho orgulho porque não aceitei que me impusessem a mesma humilhação que praticaram contra meus semelhantes. Tenho orgulho porque há gays que me inspiram e me servem de referência, para além dos estereótipos e críticas. Eu tenho orgulho porque sei que sei que posso inspirar outras pessoas. Tenho orgulho porque convivo com a minha família e eles podem testificar do amor entre mim e meu marido. Tenho orgulho porque não preciso mais me preocupar se estou dando pinta, ou não. Tenho orgulho porque aceito a minha delicadeza e as minhas características femininas assim como as masculinas. Tenho orgulho porque tenho amigos gays e heterossexuais que me amam e me apoiam. Tenho orgulho porque eu não sou apenas gay e por fazer difícil a vida daqueles que querem definir-me apenas por esse rótulo. Tenho orgulho porque não tenho vergonha!

#PasseDaVergonhaProOrgulhoVcTambém


quinta-feira, junho 23, 2016

Qual é o problema?

É complicado. É doloroso. Sinto-me até forte, mas não por isso menos covarde. Eu não posso aceitar me permitir. Silencio. Silêncio. Não escreverei muito porque o muito dizer já não é capaz de arrefecer o que sinto. As muitas palavras tampouco dão conta de expressar o que há comigo. Nem o soneto de Camões fez qualquer sentido. Nem o que eu mesmo digo ressoa. De todo jeito, percebo que todos estão surdos. Escrevo, mas ninguém tem tempo de me ler e, quem acha que me lê, é cego ou, simplesmente, não sabe. Emudeço. Choro sem ter o que fazer. É tudo interno, contido. Antes que qualquer lágrima se forme, a retina as seca. As minhas emoções estão embaralhadas. Não entendo esse meu desejo pelo abismo proibido do desconhecido. Sinto-me impelido a saltar. Inicio a corrida e fico. Provoco-o e não vejo reação. Pelo menos, não a esperada. Provoco-me e estagno. Não vejo as correntes, mas estou preso. É tudo tão lamentável, ridículo! Eu sou ridículo. Preciso de ajuda! O Passado me faz cobranças e o Futuro não me faz qualquer promessa. Meu coração está duro e o meu miolo mole. Tudo isso porque você se pega preparado para, depois da adolescência, viver a vida de um jovem, de um adulto responsável e, sem mais nem menos, adolesce. Virei um adolescente-problema e eu sou o meu pai. Eu respondo por esse adolescente. Adolesci, hoje, já depois dos trinta. O que posso fazer? Sentir o arrepio na espinha do menino que vai dar o seu primeiro beijo? Tremer de medo e de prazer exatamente como naquele momento que antecedeu o primeiro gozo compartilhado? No pensamento, tudo tem sabor da primeira vez: o flerte, as insinuações, as palavras que se pensam cifradas, mas que revelam muito mais do que escondem - como é bem típico de mim! Fico intempestivo!? De que vez é essa que eu estou falando? Nao tive vez, sequer me deram uma chance. Sequer nos demos uma chance. O problema é que eu quero abraçar o Futuro. Este, completamente incerto. O problema é que amo e carrego comigo e em mim o Passado. O problema é amar o Passado e me apaixonar pela ideia que faço do Futuro. Estou dividido, mas, contraditoriamente, a elasticidade me deixa íntegro. Amo o Futuro de longe em respeito ao Passado. Torno-me a foz para onde Passado e Futuro confluem. Os dois estão dentro de mim. Esse é o problema!

João de Lima Júnior
23 de Junho de 2016, de tarde.

Amor é um Fogo que Arde sem se Ver

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos" 

terça-feira, junho 21, 2016

Beligerante

Sinto um não saber que me deixa numa beligerância interna. Estou em guerra comigo mesmo. Guerra essa que só um amor inventado é capaz de pacificar. Algumas histórias, já dizia o poeta Cazuza, são inventadas para nos distrair e, quando acabam, chega-se a pensar que elas nunca existiram.

Toda história de amor é de Verdade. Triste saber que o gozo do amor só é possível no encontro. Dentro ou fora de nós, encontros têm a capacidade de transformar acasos em momentos, em memórias de tudo que foi e que será. Algumas histórias de amor, contudo, são particularmente dolorosas porque ocorrem nos vazios da impossibilidade. Essas histórias nos deixam no limiar entre o arriscar e o para sempre estagnar.

Beligerante e quase partido foi como fiquei depois de conhecer a história de amor de Paulo Souto e Júlia Amora do livro Louvre-Rivoli (estação partida), de Fábio Fabato e de Vera Marina.


Nas cartas que Paulinho e Julinha trocaram, um trecho em especial arrebatou minha atenção:

Júlia Amora (22/12/2003): "Clarice, a Lispector, um dia me saiu com a pérola: "Não suporto meios-termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meio amiga nem seu quase amor.
Será mesmo? Tendo a acreditar que sou mais que uma amiga e vivo na antevéspera de um quase amor. Uma certeza me resta, começo a me deixar seduzir por você. E o jogo da sedução se faz como uma avalanche.

Soterrado nesse gelo de sedução fictícia, apazíguo meu corpo cálido, refreio meus impulsos e acalmo meus demônios. Vivo tudo lá por não poder viver aqui. Minha mente não me deixa em paz. O pensamento em você não descansa. Fui para longe, talvez a Paris. Descansar. Resistirei a uma nova avalanche?


João C. de Lima Júnior
(ao som de Meu Coração está radiante - Grupo Revelação)




sexta-feira, junho 10, 2016

Tortura

Essa reflexão é sobre o NÃO. O não poder. O não dizer. O não fazer. O não ir. Como diz a canção: o homem que diz vou, não vai, porque, quando foi, já não quis. Amor só é bom se doer! Estou preso. Dói. Gosto. Mas não há nada de sadomasoquista aqui. Não é sobre SEXO a reflexão. Eu disse. É sobre o NÃO. Nunca foi sobre sexo, mesmo quando eu achava que fosse.

Você, leitor, é Ele. Ele com letra maiúscula. Ele, a figura que me ajuda a contar essa reflexão.

Eis, então, que chega ele. Ele tem o olhar doce e perdido. Ele não sabe aonde vai, mas a sua face e o seu caminhar refletem uma placidez de criança. Não há qualquer marca de preocupação nos lábios vermelhos dele. Ele respira manso. Impossível imaginá-lo com o ódio típico dos verdugos. Ele exibe, no geral, certa decepção no olhar. Como pode Ele ser o meu torturador? Começo a despertar pouco a pouco. Vejo-me numa sala mal iluminada sobre uma cama. Sinto cheiro de álcool, mas não me lembro de ter bebido. Sinto também um gosto de veneno na boca. Percebo que tenho a consciência um pouco alterada e o corpo padece quase tanto quanto a mente. Ouço passos sobre poças de água. É um barulho que me acalmaria não fosse a situação. Aguardo. Lembro-me de quando Ele e eu éramos jovens. Não. Nunca fomos jovens juntos. Por momentos, talvez, ficamos mais jovens. Ouvi a canção que Ele colocou e rejuvenesci. Eu queria que Ele - que como os passos indicam já vem vindo - tivesse ficado mais jovem comigo. Mas não! Ele apenas tem uma lembrança de juventude. Não foi por mim! Depois, dei-me conta de que, não. Eu tampouco rejuvenesci. Adolesci ao contrário. E, apesar de ter adolescido, fiquei sem malícia alguma. Fiquei de verdade. Fiquei inteiro. Fiquei dono de cada célula do meu corpo, plenamente consciente de mim. Estou preso. Dói. Gosto.

E ele? Ele vem vindo? Não sei se vem. Ele não quer vir e quer vir. Ele hesita. Ele não precisa continuar com isso. E eu? Continuo aguardando o meu algoz. Que horas ele vai chegar? Que horas ele vai partir? Que horas ele vai dizer que já chega dessa sessão? Já foi o bastante? Adormeço agora. Eu sei que não dormirei de fato até desfalecer. Sei que, quando acordar, ainda estarei pensando nele, na sua placidez de criança, no seu sorriso frio, no seu olhar doce e perdido, na névoa misteriosa que esconde o seu nome de todos, menos dele mesmo. Ele sabe que é ele. Ele só não tem medo de que eu lhe veja o rosto. Ele se mostra. Nós nos enxergamos perfeitamente. Não fosse a brevidade das circunstâncias, diríamos que somos quase amigos íntimos. Ele não se surpreende com nenhuma dessas linhas. E por que se surpreenderia se com um gesto alcóolico de um Judas moderno antecipara tudo com um beijo molhado que avançou a bochecha, a minha bochecha? Ele sequer precisou de 30 moedas de prata. Ele, talvez não me tenha traído, mas já iniciou a tortura ali. É a espera que me agonia. É o não saber se virá, o que virá. Estarei vivendo essa tensão em alguns dias? Estranhamente, sorrio. Estou preso. Dói. Gosto.

Continuo ouvindo os seus passos pelo frio corredor que mais parece um túnel. Vejo uma luz. Seria tudo isso um sonho? Sinto, agora, um misto de dor e de prazer. Já deu para perceber que gosto dessa tortura, não é? Parece que ele também. Ele me torturará até quando a sua culpa permitir. A culpa dele vem da sua negligência para com o outro e a sua total incapacidade de perder. A culpa vem também de um vazio e de uma necessidade, mesmo que momentâneos. Ele precisa de atenção e me ignora. Percebo que, no fundo, ele não me ignora. Não por completo. É possível que ele esteja instigado, curioso, querendo me observar e me ver sofrer, mas não tem certeza se quer estar ali, se precisa estar ali. Apesar de tanta dúvida, não hesita, move-se calculadamente. Parece experiente nesses assuntos. Apesar do rosto juvenil e dos olhos perdidos, abandonados, ele tem um controle absoluto sobre as ações e escolhe bem as palavras e manda recados cifrados. Sinto-me um idiota. Eu sei que ele não precisa estar ali. Eu sei que é indiferente para ele. Eu sei que sou só mais um, mais uma história. Percebo que ele intui muito sobre mim, mas não me entende. Estou preso. Dói. Gosto.

Ao longe, ainda que sonolento, percebo que ele examina metais. Manipula as mais cruéis ferramentas
de horror com um sorriso no canto dos lábios e certo olhar de pena. Não, ele não me ignora. E eu quero, não quero, que ele me ignore. Eu sei. Eu sei também que a minha lágrima não é a fonte do seu prazer. O seu prazer é esse meu desejo escondido, contido, infantil e verborrágico que ele não sabe se odeia, se gosta, ou se é indiferente. É difícil ficar indiferente ao meu grito. Mas Ele parece surdo. Não, não é a minha lágrima o seu prazer. É a minha cara de cachorro feliz com rabo abanando e bochechas grandes. É essa contradição e confusão de sentimentos e incertezas que se sobrepõem. É a sua necessidade de sentir-se amado, embora esteja oco, carente e solitário. É a sua sina de divertir-se com ilusões. Sina essa que, aparentemente, compartilhamos.  Como pode haver tanto em comum entre o torturado e o seu algoz? Estou preso. Dói. Gosto.

Ele sente medo. Ele acha tudo estranho. Ele começa a fugir! Ele se pergunta por que se meteu nessa minha reflexão confusa. De repente, Ele percebe que EU não estou preso. Nunca estive! Eu até queria, mas não estou. Ele se pergunta por que eu fiz que estava preso. Ele também se pergunta se eu vim aqui porque Ele quis que eu viesse. Sem que ele tenha tempo de me perguntar, eu respondo: -Não! Eu só não tinha mais aonde ir. Ele não entendeu que eu estava preso somente porque dói em mim e eu gosto.

A reflexão era sobre o não. Eu NÃO tinha mesmo mais aonde ir. Era toda uma prisão que criei, em que fiz que me prendi por uma vontade toda própria, toda minha, confusa como eu. Ali, eu caí, chorei, abracei, gozei e dormi. Sozinho. Vivi tudo isso sozinho. Estar ali nunca foi decisão dele. Para falar a verdade, Ele sequer estava ali. E essa é a verdadeira tortura: a sua ausência.



quinta-feira, junho 02, 2016

A complexidade da amizade

Então, amigos?

Eu quero tirar a máscara de fofura da amizade.

Quando se é adolescente, a amizade é a percepção já bastante anunciada de que você pode escolher a sua família, conviver com gente diferente, aprender coisas novas. Cada nova amizade é uma nova aventura, um universo inteirinho disponível num copo d'água. É fácil bebê-lo. Beber dele é como a fruta proibida. Você percebe que nem tudo é como o seu pai e a sua mãe te disseram que era/seria. O melhor de tudo é saber que, após comer dos frutos da amizade, você não é expulso do paraíso. Não! Com um pouco de consciência e sabedoria, é ao fazer o primeiro amigo que acabamos entrando no verdadeiro paraíso da vida adolescente e adulta.


Depois de um tempo, quando "crescemos", encontramos um amigo, ou amiga, para chamar de nosso.
Só nosso! Casamos. Até tenta-se continuar sociável. Finge-se desejar manter-se presente, na roda. Promete-se não esquecer os "outros amigos", mas, quase todo mundo que se casa acaba saindo da roda, seja por um motivo ou por outro. Só depois de muito tempo, casamento caindo na rotina, ciúmes ficando sufocantes, os assuntos tornando-se os mesmos, filhos crescendo, percebe-se: eu preciso de amigos! Há exceções mil, claro, mas, geralmente, é assim que acontece. Amigos parecem ferramentas, chaves com um mundo exterior, porta para fora de casa, para fora das pressões da família. Confesso que não gosto dessa visão! Afinal, amigos não são e não podem ser objetos. Amigos precisam de carinho, de cuidado, de amor. Não devem ser fuga da família, mas fazer parte dela. Por que é que todo mundo fala que os amigos são os irmãos que se pode escolher, mas acabam afastando-os/se quando se casam.

Eu hein! Povo mais confuso!

É quase um consenso! Todo texto fala bem de amizade. Eu vou falar mal! E nem me venham dizer que os meus amigos não são amigos de verdade. Eles o são, sim! Não me acuse de não amar os meus amigos, de estar amargurado, ou de não compreendê-los. Eu os amo, sim! Estou numa das melhores fases da minha vida, sem qualquer amargura, sem qualquer pressão. Fato é que, nem sempre, compreendo meus amigos. Eu mesmo não me compreendo. Quase nunca! Esse é um esforço para entender, entender-me, entendê-la, a amizade.

A amizade, porém, é um sentimento complicado, um sistema todo complexo. É uma gangorra! 

Na gangorra do amor, quando se está "de castigo", você pula para fora e deixa o outro brincando sozinho. –Bobão! Há um medo de cair, sim, mas um pouco de coragem resolve. 

Na gangorra da amizade, não! É preciso ser perseverante. Há, até mesmo, um pouco de resignação, um pouco de cobrança, algumas DRs. Saltar fora, contudo, é visto, quase sempre, como um erro. Está lá, no livro dos sentimentos, em que se encontram todas as regras que regem o universo: "-não se deve virar as costas para um amigo!" A amizade, nesse aspecto, é um sentimento muito mais incondicional que o amor.

A amizade é amar sem exigir nada. É procurar e nem sempre ser procurado. É falar, falar e falar! É perceber-se falando sozinho, ainda que estivesse buscando, no outro, uma luz, uma resposta, uma ajuda. É ligar para desabafar e ouvir, sem qualquer culpa ou desculpa convincente: -Alô? Oi? Depois conversamos, tá? Tô ocupado agora (risos ao fundo)! A amizade é ouvir, ouvir e ouvir! -Continue ouvindo! É sinal de amor.

Amigos, no geral, são seres muito nobres! Só? Não! São anjos! A verdade é que anjo mesmo não anda voando por aí. Não me alarmo. Nem nobre eu sou! Mas é verdade: as pessoas, de modo geral, gostam de delicadeza, polidez, certa distância, palpites sábios...conselhos? apenas nas horas certas.  "-Tá vendo, gente? Eu não sou tão sem noção assim!"

É preciso ser suporte, apoio, esteio, ombro, cabeceira e não cama. Desejo é proibitivo! Pica amiga só existe, ou em filmes, ou quando alguém pensa na música do Cazuza: "Raspas e restos me interessam//me ame, com amor ou não//me ame como a um irmão//mentiras sinceras me interessam", ou quando alguém quer, e vai, "quebrar a cara", sofrer. Muito!  No mais, é preciso ser firme, quase um santo. E até para ter conexão, empatia, compaixão, é preciso ter cuidado. Não é legal envolver-se tanto. É a vida do outro, não a sua. -Meta-se na sua vida!

–Não precisei sequer de terapia para sacar essa, viu gente?

Por fim, eu fico sem saber como terminar esse texto. Juras de amor eterno aos meus amigos não farão qualquer sentido diante da máscara de fofura que acabei de derrubar. Talvez fique o alerta contra o egoísmo. Talvez fique o convite para que você continue enxergando e bebendo do universo do seu amigo com prazer, quase incondicionalmente. Talvez eu só queira mesmo estreitar os laços com os meus, para além do copo cheio de álcool, para além da noite cheia de luzes e barulhos ensurdecedores, para além também das tragédias, das confissões, enfim, dos grandes momentos.


Vivamos a amizade na simplicidade, no dia a dia, com paciência, tolerância e 

...juras de amor inesperadas...

Por que não? Meus amigos, não resisti:

-amo vocês demais e para sempre!!!